1984: 66 minutos para releitura de Orwell

1984 está entre meus livros preferidos da vida porque, entre outras questões, perpassa os temas de comportamento humano e relações de poder entre Estado e imprensa – na visão do autor, a invenção da imprensa tornou mais fácil a manipulação da opinião pública. E hoje ouvi um podcast ótimo analisando a literatura de George Orwell, no canal da minima.fm no Spotify. O programa Distopia é conduzido por Alexandre Becker com Carol Becker e Gustavo Czekster.

Escrevi um post sobre o livro há alguns anos quando adotei ele como leitura obrigatória para discussão em sala de aula na disciplina de jornalismo online e cibercultura. A leitura suscita debate sobre muitas questões bastante atuais: controle do comportamento, preconceito de gênero, apagamento de arquivos históricos, criação de uma nova linguagem (a novilíngua) e até a noção de punição (crimidéia). É a palavra no direcionamento do domínio de uma sociedade.

Relendo o post, me assusto com o quão atual é a discussão proposta no livro sobre memória e verdade em tempos de pós-verdade. Escrevi em 2010: “Controlar comportamentos, reações e falas seria possível com vigilância, mas como controlar a memória? O Grande Irmão, codinome do partido, acreditava ser possível deletar todo o passado queimando documentos e convencer a população que fatos reais nunca existiram. Afinal, se todos aceitassem a versão do partido, então a mentira se transformaria em verdade.”

O livro também aborda a questão da vigilância por teletelas e do “momento de ódio”, tão atuais em tempos de mídias sociais. Esse tema abordei em outro post, de 2009, quando dois fatos viralizaram assustadoramente na web: a Vanusa cantando o hino errado e uma professora baiana sensualizando no funk. Uma famosa e a outra anônima, mas punidas da mesma forma pela vigilância moral e pelo julgamento do tribunal das mídias sociais. De 2009 a 2019, muitos outros anônimos e famosos foram alçados à superexposição, julgados e punidos, sem chance de recurso. Aliás, o Buzzfeed publicou hoje, no dia da Consciência Negra, uma notícia sobre posts de ódio no Twitter. O texto traz como fonte uma pesquisa acadêmica que adotou o software Gephi para monitorar o uso de palavras-chave racistas e preconceituosas por 15 períodos de 24 horas e concluiu que há uma média de 1 post de ódio a cada oito segundos em português.

Mas voltando ao podcast da minima.fm, um último argumento para dedicar 66 minutos da sua atenção para ouvir o podcast: o trio retoma as músicas da trilha sonora do filme 1984. Entre elas, a clássica Sex Crime, Eurythmics.

Ah, a íntegra do filme está no YouTube.