1984: 66 minutos para releitura de Orwell

1984 está entre meus livros preferidos da vida porque, entre outras questões, perpassa os temas de comportamento humano e relações de poder entre Estado e imprensa – na visão do autor, a invenção da imprensa tornou mais fácil a manipulação da opinião pública. E hoje ouvi um podcast ótimo analisando a literatura de George Orwell, no canal da minima.fm no Spotify. O programa Distopia é conduzido por Alexandre Becker com Carol Becker e Gustavo Czekster.

Escrevi um post sobre o livro há alguns anos quando adotei ele como leitura obrigatória para discussão em sala de aula na disciplina de jornalismo online e cibercultura. A leitura suscita debate sobre muitas questões bastante atuais: controle do comportamento, preconceito de gênero, apagamento de arquivos históricos, criação de uma nova linguagem (a novilíngua) e até a noção de punição (crimidéia). É a palavra no direcionamento do domínio de uma sociedade.

Relendo o post, me assusto com o quão atual é a discussão proposta no livro sobre memória e verdade em tempos de pós-verdade. Escrevi em 2010: “Controlar comportamentos, reações e falas seria possível com vigilância, mas como controlar a memória? O Grande Irmão, codinome do partido, acreditava ser possível deletar todo o passado queimando documentos e convencer a população que fatos reais nunca existiram. Afinal, se todos aceitassem a versão do partido, então a mentira se transformaria em verdade.”

O livro também aborda a questão da vigilância por teletelas e do “momento de ódio”, tão atuais em tempos de mídias sociais. Esse tema abordei em outro post, de 2009, quando dois fatos viralizaram assustadoramente na web: a Vanusa cantando o hino errado e uma professora baiana sensualizando no funk. Uma famosa e a outra anônima, mas punidas da mesma forma pela vigilância moral e pelo julgamento do tribunal das mídias sociais. De 2009 a 2019, muitos outros anônimos e famosos foram alçados à superexposição, julgados e punidos, sem chance de recurso. Aliás, o Buzzfeed publicou hoje, no dia da Consciência Negra, uma notícia sobre posts de ódio no Twitter. O texto traz como fonte uma pesquisa acadêmica que adotou o software Gephi para monitorar o uso de palavras-chave racistas e preconceituosas por 15 períodos de 24 horas e concluiu que há uma média de 1 post de ódio a cada oito segundos em português.

Mas voltando ao podcast da minima.fm, um último argumento para dedicar 66 minutos da sua atenção para ouvir o podcast: o trio retoma as músicas da trilha sonora do filme 1984. Entre elas, a clássica Sex Crime, Eurythmics.

Ah, a íntegra do filme está no YouTube.

Washington Post: TV para ler, impresso para assistir

The Washington Post reimagines news on TV with new reading experience - The Washington PostO jornal americano Washington Post – adquirido pelo CEO da Amazon Jeff Bezos – anunciou um aplicativo para leitura de notícias na tela da TV. O aplicativo está disponível na Amazon Fire TV e na Apple TV. A empresa anunciou uma “reimaginação das notícias na TV com uma nova experiência de leitura“. As reportagens ofertadas no aplicativo são “altamente visuais e interativas”. O leitor tem a escolha de navegar em tela cheia pelas manchetes, escolher vídeos, áudios, textos, aumentar ou diminuir o tamanho das letras e ter uma melhor de “concentração de leitura”.

O aplicativo  proposto pela equipe do Washington Post parece uma interessante evolução das primeiras tentativas de leitura na tela da TV: o videotexto. O videotexto era um sistema de transmissão e recepção de dados desenvolvido nos anos 70 e 80, que utilizava um terminal de vídeo conectado a um computador através de uma linha telefônica. Segundo Longhi (2009), no artigo videotexto como precursor do jornalismo nos novos meios, o primeiro desses sistemas apareceu na Inglaterra, através dos correios britânicos, em 1978, com o objetivo de criar novos serviços para estimular o uso do telefone e da televisão. Também chamada de teletexto, a tecnologia de transmissão que unia televisão, telefone e computador chegou a se popularizar em alguns países da Europa antes da chegada da internet. Na wikipedia é possível encontrar na definição do vocábulo teletexto uma imagem que reproduz uma tela da experiência alemã.

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No texto, Longhi cita o livro de Verginio Zaniboni Netto, O Videotexto no Brasil, publicado em 1986. O autor resgatou a experiência brasileira com a tecnologia por meio do jornal O Estado de São Paulo pioneiro como “fornecedor de serviço”, “cujo centro era o noticiário, com dados da Agência Estado, proporcionando ao usuário a notícia antecipadamente, ou seja, à noite, antes que fosse veiculado pelos jornais do dia seguinte (1986: 6). Pelo menos dois fatos memoráveis foram noticiados antes na TV: a cobertura das Olimpíadas de Los Angeles e a doença e morte do presidente Tancredo Neves, em 1984. Os autores ainda lembram que outros grupos jornalísticos, como a Gazeta Mercantil, o jornal Indústria e Comércio do Paraná, o Correio Brasiliense e a Associação Jornalística da Baixada Santista também se tornaram fornecedores de serviço em videotexto. Tudo isso antes da chegada da internet comercial no país, que aconteceu em 1995 e também trouxe a promessa de adiantar a manchete do dia seguinte.

Mas voltando ao Washington Post, a proposta me parece alvissareira. Desenvolvido por uma equipe de produto digital própria em parceria com a multinacional SAP – líder em desenvolvimento de softwares -, a aplicação foi desenvolvida a partir de dados sobre o comportamento de consumo dos usuários da Amazon FireTV e da Apple TV e testada por um grupo de early adopters antes de ser lançada. A tecnologia oferece uma seleção de manchetes (imagem e texto) selecionada por editores do jornal, ao escolher um item, o teleleitor pode rolar a tela para baixo com o controle remoto, ajustar o tamanho da fonte e cor para ler com conforto na tela grande. Também oferece recursos multimídia e interativos para o leitor optar pelo consumo que lhe convier.

O jornal impresso que tem a leitura textual como espinha dorsal ajusta a tecnologia ao valor do conteúdo mais relevante para o veículo, sem perder o centro forte da inteligência jornalística. Tenho repetido, desde a publicação do artigo sobre narrativas de realidade virtual do NYT, Guardian e El País, que os jornais terão futuro ao investir em programação para a internet e aplicações com narrativas jornalísticas proprietárias. Eu e Bezos, nesse aspecto, estamos juntos!

 

Jornalismo de dados: apuração, análise e formas de visualização

       Para escrever sobre o chamado jornalismo de dados e seu processo de produção proponho duas abordagens: uma teórica que remete para a origem do termo e suas variações e um uma pragmática que aborda as etapas de produção do jornalismo com o uso e apropriação de dados. Entendo que o jornalismo de dados como prática é resultado de, pelo menos, três fatores: 1) uma aculturação da comunidade de jornalistas com a técnica do meio digital, buscando aprender as características do novo meio e incorporando novas condutas na medida em que a internet estabeleceu a convergência dos meios; 2) a intensificação de políticas públicas de acesso a dados governamentais de interesse público em formatos abertos e manipuláveis, o que ampliou a quantidade de base de dados à disposição como fonte;  3) a disponibilidade de softwares para extração, limpeza, análise e visualização de dados, tornando o produto da reportagem jornalística de dados mais preciso, multimídia e rastreável, ou seja, reprodutível como método científico de investigação.

A noção de jornalismo de dados está diretamente vinculada à noção de objetividade jornalística. A indústria de mídia do século XX forjou a partir de uma conduta profissional comum aos pares a profissionalização do jornalismo como forma de conhecimento, vinculada a valores notícia construídos socialmente. A linguagem jornalística esteve assim calçada sobre o relato o mais objetivo possível em relação ao fato sobre o qual se narra. O texto deveria ser escrito em ordem direta, de forma objetiva, clara, coesa, utilizando dados entre eles números, medidas, pesos e analogias quando necessário para descrever a história. Pois a discussão entre a subjetividade versus a objetividade jornalística está no centro do interesse do repórter Philip Meyer (2002) quando ele escreveu o clássico Jornalismo de Precisão. O autor propunha que os jornalistas se apropriassem de métodos das ciências sociais para investigar as pautas e assim se afastassem do senso comum opiniático. Colunistas de Los Angeles, à época, escreviam sobre as manifestações de rua de minorias considerando que os manifestantes via de regra eram pessoas pouco instruídas, imigrantes com dificuldade de adaptação e de baixo poder aquisitivo. Meyer propôs uma sondagem com uma amostra de manifestantes e o resultado contrapôs o senso comum dos colunistas: a maior parte dos manifestantes tinha pelo menos o ensino médio e não era imigrante sulista. Havia um banco de dados, números, porcentagens. Meyer, entusiasta que era dos bancos de dados e dos programas de computadores, chegou a defender que os repórteres aprendessem a programar códigos para ter mais controle e autonomia na análise das informações geradas pelo computador.

Os conceitos de jornalismo de precisão foram incorporados por um grupo de jornalistas investigativos que passou a usar os computadores como auxiliares na produção e nos processos jornalísticos, esse grupo era reconhecido como praticantes de RAC (reportagem assistida por computadores). Eles tinham mais familiaridade com os softwares e com o hardware e faziam melhor uso de editores de textos, tabelas, planilhas, programações visuais e outros recursos. Mais tarde, esses repórteres também foram os pioneiros no uso de busca avançada em bases de dados e em mecanismos de indexação como Cadê, Yahoo e Google. Esse era um grupo que estava mais vinculado ao conjunto de profissionais identificados com o jornalismo investigativo. Muitos autores também associam o jornalismo de dados ao jornalismo investigativo (BRADSHAW, 2014, 2012; TRASEL, 2014; NASCIMENTO, 2007). Assim, o jornalismo de precisão inspirou a prática da reportagem assistida por computadores que antecedeu o jornalismo de dados (BARBOSA, 2007, 2013; TRASEL, 2014; GRAY e BONEGRU, 2012) e o jornalismo computacional (STAVELIN, 2013 ).

A relação dos jornalistas com os computadores pode ser dividida em três fases: a partir dos anos 1980, com a chegada dos computadores às redações, os jornalistas começaram a utilizar os computadores como auxiliar na reportagem, produção, apuração, redação, diagramação, etc. A partir da chegada da internet de amplo acesso em 1995, os jornalistas passaram a usar os computadores não apenas como ferramentas, mas como estrutura de trabalho produção, edição e circulação do jornalismo. E na fase mais recente, pós-2010, quando o ambiente digital passou a ser visto pelos jornalistas como loco de fonte jornalística. Ao longo dessas etapas, os jornalistas foram aos poucos se familiarizando com a nova tecnologia e com as características do ambiente digital multimídia e hipertextual por natureza.

A terceira fase foi também embalada por políticas públicas de transparência digital que impulsionaram a disponibilização de dados públicos digitais (BRENOL, 2019) em vários países e, no Brasil, em especial, com a Lei de Acesso a Informação (LAI, 2013). Os jornalistas identificaram em leis como a de acesso a informação pública uma porta para ganhar mais autonomia de fontes governamentais e ampliar o poder de fiscalização dos atos e ações governamentais. A possibilidade de consolidar o uso e apropriação de dados públicos, utilizando técnicas do jornalismo de dados, criou no campo profissional uma rede de  jornalistas identificados com a prática e com a noção de mediação do debate público para provocar impacto em ações políticas e de gestão pública (BRENOL, 2019).

A possibilidade de reforçar o ethos profissional a partir de uma prática mais objetiva e precisa de fiscalização do poder, com mais autonomia, mais tempo e mais fontes, gerou no grupo um sentimento de união e uma necessidade de aprendizagem das técnicas. O chamado jornalismo de dados ou jornalismo guiado por dados se tornou um argumento de defesa do papel social da profissão em um ambiente cada vez mais tomado pela desinformação. Assim, os jornalistas iniciaram o processo de trabalhar a apuração, a análise e as formas de visualização em ambiente multiplataforma, utilizando as características próprias do jornalismo digital, as ferramentas digitais de análise e as técnicas clássicas de apuração jornalística. Jornalismo de dados é, antes de qualquer nomenclatura, jornalismo.

Bradshaw (2012) desenvolveu um esquema chamado de pirâmide invertida do jornalismo de dados. Segundo o autor, o repórter que vai trabalhar com grandes volumes de dados deve primeiro 1) compilar os dados, ou seja, reunir as bases de dados que interessam para o tema em questão, depois 2) limpar os dados, ou seja, aplicar fórmulas simples que possam identificar em uma planilha termos sobrepostos, entradas duplicadas ou vazias, erros de leitura, formatação incongruente e outros, 3) contextualizar os dados, verificar quem levantou esses dados, com qual método e com que objetivo, para que qualquer viés possa ser considerado na narrativa e 4) combinação, ou seja, cruzamento de dois grupos de dados, por exemplo, dados sobre desempenho de escolas municipais com dados geográficos de localização física das escolas para gerar uma interação sobre essas informações.

Mas o compilar, limpar, contextualizar e combinar são a primeira parte, a parte da apuração jornalística dos dados. As informações geradas nessa análise devem ainda ser complementadas com outras técnicas jornalísticas com entrevistas com fontes e especialistas e até cases de pessoas que possam representar empaticamente esses números. Bradshaw (2012) complementa o esquema com a segunda fase que ele chama de comunicação a qual inclui 1) visualização, ou seja, adequação dos dados à linguagem gráfica, narrativa, redação textual de começo, meio e fim, 2) socialização, espalhamento em mídias sociais, 3) humanização, ilustração com histórias de pessoas reais em especial para TV e rádio, 4) personalização, quando abre a possibilidade de o leitor recortar informações de acordo com sua região, idade ou interesse e 5) utilização, quando o jornal pode utilizar os dados para desenvolver ferramentas digitais como calculadoras, buscadores de empregos, buscador de candidatos a eleições e outros recursos.

 

 

ANDERSON, C.W. 2015. Between the Unique and the Pattern: Historical Tensions in our Understanding of Quantitative Journalism. In: S. LEWIS (ed.), Digital Journalism, Journalism in an Era of Big Data: Cases, Concepts, and Critiques. Digital Journalism, 3(3):321-330. http://dx.doi.org/10.1080/21670811.2014.976407

ANDERSON, C.W.; BELL, E.; SHIRKY, C. 2013. PostIndustrial Journalism: Adapting to the Present. Columbia Journalism School, 2013. Disponível em: http://towcenter. org/wp-content/uploads/2012/11/TOWCenter-Post_Industrial_Journalism.pdf. Acesso em: 01/12/2014.

BARBOSA, S. 2006. O que é Jornalismo Digital em Base de Dados. In: Encontro Anual da Compós, XV, Bauru, 2006. Disponível em: http://www.academia.edu/15328433/O_ QUE_%C3%89_JORNALISMO_DIGITAL_EM_BASES_DE_DADOS_1. Acesso em: 12/05/2016.

BARBOSA, S. 2007. Jornalismo Digital em Base de Dados ( JDBD): um paradigma para produtos jornalísticos digitais dinâmicos. Salvador, BA. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia, 331 p.

BREVINI, Benedetta; HINTZ, Arne; MCCURDY, Patrick (Ed.). Beyond WikiLeaks: implications for the future of communications, journalism and society. Springer, 2013.

BRADSHAW, P. 2014. O que é Jornalismo de Dados. Manual de Jornalismo de Dados. Disponível em: http://datajournalismhandbook.org/pt/introducao_0.html. Acesso em: 15/05/2015.

BRADSHAW, Paul. The inverted pyramid of data journalism
https://onlinejournalismblog.com/2011/07/13/the-inverted-pyramid-of-data-journalism-part-2-6-ways-of-communicating-data-journalism/ 2012, online

BRADSHAW, Paul. 6 ways of communicating data journalism (The inverted pyramid of data journalism part 2) 2012, online
https://onlinejournalismblog.com/2011/07/13/the-inverted-pyramid-of-data-journalism-part-2-6-ways-of-communicating-data-journalism/

BRADSHAW, Paul. Datajournalism with an impact
https://datajournalism.com/read/handbook/two/situating-data-journalism/data-journalism-with-impact

GRAY, J.; BOUNEGRU, L.; CHAMBERS, L. 2014. Manual de Jornalismo de Dados, 2014. Disponível em: http://datajournalismhandbook.org/pt/. Acesso em: 01/12/2014. HACKETT, K. 2013. Journalism Data Age. Quill

MEYER, Philip. Precision Journalism, a reporter´s introduction to Social Science Methods. Rouman & Littlefield, 2002

STAVELIN, E. (2013). Computational journalism: when journalism meets programming.  Bergen: University of Bergen.

Um texto fundamental para pensar o jornalismo

Neste post eu traduzo o texto do jornalista e programador Adrian Holovaty escrito em 2006 com o título “A fundamental way newspaper sites need to change”. Holovaty desenvolveu o EveryBlock, um site participativo sobre notícias locais que ilustra este texto por ser um exemplo de produto jornalístico não centrado em narrativa textual.

Esse é o argumento central do post traduzido abaixo:ele afirma que os jornalistas devem combater a visão mundo story-centric, ou seja, centrada na narrativa textual.

O argumento é que os jornalistas são estruturadores de informações: datas de nascimento, preços de produtos, praças, temperaturas, etc. A apuração de informações pode ser facilmente percebida como dados estruturados, mas os jornais apresentam esses dados em longos blocos de textos ou em tabelas e infográficos apenas ilustrativos. Ou seja, transformam a informação apurada de forma estruturada em textos não estruturados e como tais dificilmente legíveis pelos computadores, suscetíveis de fragmentação para serem aproveitados pelo leitor.

Estruturar os atributos de uma notícia é tornar essa notícia em informação armazenável e manipulável. Se a cada notícia de acidente de trânsito na cidade o jornalista colher informações sobre o endereço, os tipos de carros envolvidos, o horário, a idade do motorista, o ano do carro, a velocidade entre outros e estruturar em todos acidentes subsequentes os mesmo atributos, o jornalista terá uma base de dados. A proposta de Holovaty é que os jornais e os jornalistas possam pensar formatações estruturadas desses dados.

Holovaty não está preocupado em como essas informações serão formatadas para diferentes meios – celular, tablets, computadores – mas como elas podem ganhar um propósito diferente se puderem ser lidas por computadores e acessadas pelos leitores com navegação interativa.

A discussão torna-se importante para tempos em que os jornalistas se deparam diariamente com as propriedades do ambiente digital.

 

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Uma maneira fundamental para que os sites de jornais precisam mudar
Escrito por Adrian Holovaty em 6 de setembro de 2006

Um post de blog intitulada 9 Formas de Jornais para Melhorar seus sites circulou bastante ultimamente. Eu não escrevo sobre o setor de notícias on-line neste site como eu costumava, mas o artigo citado me inspirou a exibir o meu pensamento atual sobre o que os sites de jornal precisam fazer. Aqui, apresento minha opinião sobre uma mudança fundamental que precisa acontecer.

Tenho um diploma de jornalismo, pelo que vale a pena e trabalhei para sites de jornais desde 1998 (incluindo o jornal da faculdade e os estágios). Os sites: themaneater.com (agora uma sombra pálida de seu antigo self) na Universidade do Missouri, SuburbanChicagoNews.com, ajc.com em Atlanta, LJWorld.com / Lawrence.com em Lawrence, Kansas e, no último ano, washingtonpost.com.

A maioria dos pontos feitos na entrada “9 maneiras” são OK, se um pouco excessivamente específico (“faça o seu conteúdo funcionar em celulares e PDAs”) e na moda (etiquetagem!). Não há nada de errado com isso – a indústria de jornal on-line precisa de todos os conselhos que pode obter. Mas mudanças mais fundamentais precisam acontecer para as empresas de jornal continuarem a ser fontes essenciais de informação para suas comunidades.

Uma dessas mudanças importantes é: os jornais precisam parar a visão de mundo centrada na história (story-centric world).

Condicionadas por décadas de um estilo de jornalismo estabelecido, os jornalistas tendem a ver seu principal papel assim:

Coletar informação
Escrever uma história de jornal
O problema aqui é que, para muitos tipos de notícias e informações, histórias de jornais não funcionam mais.

Muito do que os jornalistas locais coletam no dia-a-dia são informações estruturadas: o tipo de informação que pode ser cortada e cortada, de forma automatizada, por computadores. No entanto, a informação é destilada em uma grande gota de texto – uma história de jornal – que não tem chance de ser repassada.

“Reaproveitada”?

Deixe-me esclarecer. Eu não quero dizer “Exibir uma história de jornal em um celular”. Não quero dizer “Exibir uma história de jornal em RSS”. Não quero dizer “Exibir uma história de jornal no meu PDA”. Esses são bons objetivos, mas são exemplos de alteração do formato, não da própria informação. Reaproveitamento e agregação de informações é uma história diferente, e requer que a informação seja armazenada atômica – e em formato legível por máquina.

Por exemplo, diga que um jornal escreveu uma história sobre um incêndio local. Ser capaz de ler essa história em um telefone celular é bom. Hooray, tecnologia! Mas o que eu realmente quero poder fazer é explorar os fatos brutos dessa história, um por um, com camadas de atribuição e uma infra-estrutura para comparar os detalhes do fogo – data, hora, lugar, vítimas, número da estação de bombeiros , distância do departamento de bombeiros, nomes e anos de experiência de bombeiros na cena, tempo que levou para que os bombeiros chegassem – com os detalhes dos incêndios anteriores. E incêndios subseqüentes, sempre que acontecem.

Isso é o que quero dizer com dados estruturados: informações com atributos consistentes em um domínio. Cada incêndio tem esses atributos, assim como todos os crimes relatados têm muitos atributos, assim como todo jogo de basquete da faculdade tem muitos atributos.

Esses três exemplos são candidatos óbvios para a estrutura, principalmente devido à onipresença. As pessoas estão cortando e cortando estatísticas de esportes por anos. As pessoas estão analisando o crime há anos.

Mas não são apenas esses exemplos óbvios. Se você parar para observar o tipo de informação que os jornalistas colhem, verá a quantidade de informação estruturada extraída. Se eu posso tomar a liberdade de dar exemplos:

Um obituário é sobre uma pessoa, envolve datas e funerárias.
Um anúncio de casamento é sobre um casal, com uma data de casamento, data de noivado, cidade natal da noiva, cidade natal do noivo e várias outras informações felizes e floridas.
Um nascimento tem pais, uma criança (ou filhos) e uma data.
Um graduado da faculdade tem um estado de origem, uma cidade natal, um diploma, um ano de graduação e de formatura.
Um estilo “On the Street” de estilo cebola tem respondentes, respostas e uma data de publicação.
Uma bebida especial tem um dia da semana e é oferecida em um bar.
O cronograma do Congresso dos EUA tem um dia e vários itens da agenda.
Um anúncio político tem um candidato, um estado, um partido político, questões múltiplas, personagens, pistas, música e muito mais.
Todas as eleições do Senado, da Câmara e do Governador nos EUA têm localização, análise, informações demográficas, resultados das eleições anteriores, informações de financiamento de campanha e muito mais.
Todos os detidos conhecidos na Guantánamo têm uma idade aproximada, local de nascimento, taxas formais e muito mais.

Veja o tema aqui? Muitas informações que as organizações de jornal coletam são implacavelmente estruturadas. Isso leva alguém a perceber a estrutura (a parte fácil), e é preciso que alguém comece a armazená-la em um formato estruturado (a parte difícil).

Agora, posso entender por que os jornais são lentos para aceitar esse tipo de pensamento. Os jornalistas não são o grupo mais experiente em tecnologia, eles não são o grupo mais inovador, e eles são (apenas um pouco) resistentes à mudança.

Uma barreira a esse pensamento é uma espécie de arrogância jornalística: “Isso é jornalismo?” Nós somos jornalistas, e fomos treinados para explicar informações complexas às pessoas de forma que possam entender. A exibição de dados brutos não ajuda as pessoas; Escrever um artigo de notícias ajuda as pessoas, porque é em uma linguagem mais simples. “Apresentamos esses conceitos (” jornalismo via programação de computadores “, a importância de dados legíveis por máquina, etc.) em vários eventos do jornalismo-indústria e, inevitavelmente, alguém faz essas perguntas.

Bem, eu tenho algumas respostas.

Primeiro, a questão de “Isso é jornalismo?”  é acadêmica. Os jornalistas devem ter menos preocupação com o que é e não é “jornalismo”, e mais uma preocupação com informações importantes e focalizadas que são úteis para a vida das pessoas e ajudam a entender o mundo. Um jornal deve ser esse: um olhar justo sobre informações atuais e importantes para um público.

Em segundo lugar, é importante notar que não estou fazendo uma proposição de tudo ou nada; Não estou dizendo que os jornais devem se transformar completamente em vastas coleções de dados, abandonando completamente o formato de um artigo de notícias. Os artigos de notícias são ótimos para contar histórias, analisar problemas complexos e todos os tipos de outras coisas. Um artigo – uma “grande gota de texto” – é muitas vezes a melhor maneira de explicar os conceitos. As nuances da língua inglesa não mapeiam fontes de dados fáceis de manipular. (Esta entrada, que você está lendo agora, é um excelente exemplo de algo que não pode ser substituído por um banco de dados.)

Quando digo “os jornais precisam parar a visão de mundo centrada na história”, não quero dizer ” Os jornais precisam abolir histórias. “As duas formas de disseminação de informação podem coexistir e se complementar.

Mas, além da arrogância jornalística, outro problema é que o software atual e a configuração organizacional das companhias de jornal desestimulam esmagadoramente qualquer tipo de “formato especial de informações”. Todo o sistema de gerenciamento de conteúdo de site de jornal que eu já vi é incrivelmente centrado na história. Deseja publicar informações do calendário de eventos em seu CMS do site de notícias? Poste-o como um  “artigo de notícias”. Deseja publicar listas de crimes recentes em sua cidade? Ele entra como um “artigo de notícias”. Não há muito a fazer sobre isso, porque Oh, nós investimos tanto nesse CMS e / ou no nosso site de jornal não emprega Qualquer Programador de Computador. (O último dos quais faz tanto sentido quanto um diretor de cinema se recusando a empregar cameramen ou editores de video.)

Quando trabalhei na LJWorld.com, escrevemos um CMS desde o início para podermos lidar com todos esses tipos distintos de informações. (E criamos a estrutura da Web Django para nos permitir manipular novos tipos de informações rapidamente). Mas, antes disso, tínhamos um antigo CMS e nossos produtores noturnos, cujo trabalho era copiar e colar tudo do jornal impresso no sistema da Web, publicaria rotineiramente todos os pequenos recursos especiais do jornal como “artigos de notícias”. A característica do jornal “foto do dia” seria postada como uma história sem texto – apenas uma foto. O recurso “On the Street” do estilo Onion seria publicado como um artigo “artigo de notícias” contendo uma pergunta, quatro fotos e quatro respostas. Cada recurso de jornal recorrente foi postado como um “artigo de notícias”, independentemente de ser realmente um artigo de notícias – simplesmente porque esse é todo o sistema de gerenciamento de conteúdo sabia como fazer.

Este é um problema sutil, e nisso reside o esfregaço. Na minha experiência, quando tentei explicar o erro de armazenar tudo como artigo de notícias, os jornalistas não compreendem imediatamente por que é ruim. Para eles, um sistema de publicação é apenas um meio para um fim: obter informações para o público. Eles querem que seja tão rápido e simplificado quanto possível para levar o lote de informações X e colocá-lo no site Y.

Para jornalistas cabeça de texto: O objetivo não é ter dados limpos – é publicar dados rapidamente, com pontos de bônus para uma interface de usuário agradável.

Para jornalistas cabeça de dados:  O objetivo para mim, uma pessoa de dados focada mais no longo prazo, é armazenar informações no formato mais valioso possível.

O problema é particularmente frustrante para explicar porque não é necessariamente óbvio; Se você armazena tudo em seu site como artigo de notícias, o site não é necessariamente difícil de usar. Pelo contrário, é um problema de oportunidade perdida. Se todas as suas informações forem armazenadas no mesmo balde “artigo de notícias”, você não pode facilmente retirar apenas os crimes e traçá-los em um mapa da cidade. Você não pode facilmente pegar os eventos para criar um calendário de eventos. Você acaba estabelecendo o menor denominador comum: um site que sabe como exibir um tipo de conteúdo, uma grande quantidade de texto. Esse site não pode fazer as coisas legais que os leitores estão começando a esperar.

Depois, há a vantagem de serendipity. Quando trabalhei para a LJWorld.com, trabalhamos com os meteorologistas locais para criar um site meteorológico que exibisse a previsão dos meteorologistas nos próximos dias. Eu criei-lhes uma interface da Web que permitiu que eles inserissem a alta temperatura prevista, temperatura baixa e condições do céu – tudo em campos de banco de dados separados. Realmente não havia nenhum motivo para usar campos separados para esses valores além do fato de que o design do site exigia a apresentação das temperaturas de uma cor diferente das condições, e não queríamos que os meteorologistas tivessem que se lembrar de inserir o Códigos de coloração HTML no lugar certo. Mas não foi até vários meses depois que conseguimos alguns benefícios reais de base de dados, quando montamos o Game, um banco de dados exaustivo de equipes e jogos de pequenas ligas locais. (Sim, você leu esse direito.) Criamos uma página para cada equipe de liga pequena e todo jogo de liga pouco, e quando chegou a hora de criar as páginas do jogo, um de nós disse: “Você sabe, esses jogos tendem a chover muito. Seria muito legal se pudéssemos exibir a previsão do tempo para cada jogo. “E, boom! Um de nós percebeu que já tínhamos dados de previsão do tempo, em um formato agradável, com corte e dados, graças ao nosso banco de dados preenchido pelos meteorologistas. Dez minutos depois, nossas páginas exibiram previsões meteorológicas. Acaso.

Por que pesquisar sobre automatização e conteúdos falsos

2018 está pedindo passagem. Será um ano no qual a campanha eleitoral travará batalhas não apenas presenciais, televisivas e digitais, mas principalmente automatizadas. Os algoritmos entraram em campo nas manifestações de rua de 2013 e de 2015 e mostraram a força de influência que a programação para a internet pode exercer sobre a ação e a vontade humana. Vivemos na era do filtro bolha como chamou Eli Parisier. No ambiente de sites de redes sociais consumimos aqueles conteúdos que são selecionados a partir do nosso comportamento de interação aliado ao comportamento dos nossos amigos. As afinidades nos permitem estar em um círculo confortável, mas pernicioso. Se nossos amigos concordam com um posicionamento político, comentam e compartilham, a tendência é que eu siga esse efeito manada. O risco é não conhecer a fonte de origem da informação e reproduzi-la acriticamente alimentando a máquina da desinformação. O excesso de informação leva à desinformação, já nos alertou Umberco Eco ainda nos anos 1990s.

A automatização em instruções computacionais desde Alan Turing tem um potencial de eticamente salvar uma nação da guerra. O problema é que a programação dessas instruções matemáticas não é transparente. Os códigos nem sempre seguem a ética Hacker de compartilhamento, em especial, em grande empresas de tecnologia como o Facebook e a Google. A lógica é perversa: quanto mais cliques, mais retorno do investimento. Na economia digital dos gigantes, os produtores de conteúdos são remunerados por cliques por milhão (CPM), é a ditadura da visualização de página. Quanto mais clique, maior o pagamento. Essa lógica gerou as empresas de mídia de conteúdos falsos chamados fake news, ou seja, empresas criadas para caçar cliques a qualquer custo, nem que para isso inventassem fatos, declarações, acontecimentos.

Mais perverso ainda se tornou essa lógica quando percebeu-se que a instrução algorítmica também estava sendo apropriada para ativismo político na internet e aliciamento de eleitores. Notou-se o uso desse recurso nas manifestações de rua no Brasil e tomou uma proporção mais preocupante ainda nas eleições de 2016 nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump utilizou como estratégia de campanha a programação para a internet por meio de  robôs aliciadores de eleitores desavisados e desinformados, inclusive com campanha para abalar as instituições jornalísticas acusadas de produzir “fake news” para manipular a opinião pública (imagem abaixo).

2018 está batendo à porta. Que ele nos traga transparência ou, pelo menos, mais conhecimento sobre o fenômeno da manipulação pela automatização. Informação em excesso pode desinformar, informação com contexto pode nos salvar. Pesquisar sobre essa questão é imprescindível.

Trump/reprodução FOXNews

Trump/reprodução FOXNews

 

Rota Pop | a gastronomia de cinema

Gastronomia e diversão na Rota Pop!

Gastronomia e diversão na Rota Pop!

O Rota Pop é um projeto desenvolvido por estudantes de jornalismo com o objetivo de  descobrir e experimentar novos bares, cafeterias e restaurantes relacionados à cultura pop na região metropolitana de Porto Alegre (RS).

Os jovens jornalistas em formação garimparam lugares deliciosos nas cidades onde moram para desvendar as histórias de pessoas por trás dos novos negócios. Encontraram narrativas divertidas e envolventes como essa do Funny Feelings, um bar-restaurante super querido da cidade de São Leopoldo. Depois de o Rota Pop divulgar o lugar, o empreendedor Fabiano Chaves do local já foi entrevistado pelo Jornal do Comércio e pela RBSTV.

O Rota Pop esteve no Medium, no Facebook e no instagram. O projeto teve duração de um semestre em 2017.