Washington Post: TV para ler, impresso para assistir

The Washington Post reimagines news on TV with new reading experience - The Washington PostO jornal americano Washington Post – adquirido pelo CEO da Amazon Jeff Bezos – anunciou um aplicativo para leitura de notícias na tela da TV. O aplicativo está disponível na Amazon Fire TV e na Apple TV. A empresa anunciou uma “reimaginação das notícias na TV com uma nova experiência de leitura“. As reportagens ofertadas no aplicativo são “altamente visuais e interativas”. O leitor tem a escolha de navegar em tela cheia pelas manchetes, escolher vídeos, áudios, textos, aumentar ou diminuir o tamanho das letras e ter uma melhor de “concentração de leitura”.

O aplicativo  proposto pela equipe do Washington Post parece uma interessante evolução das primeiras tentativas de leitura na tela da TV: o videotexto. O videotexto era um sistema de transmissão e recepção de dados desenvolvido nos anos 70 e 80, que utilizava um terminal de vídeo conectado a um computador através de uma linha telefônica. Segundo Longhi (2009), no artigo videotexto como precursor do jornalismo nos novos meios, o primeiro desses sistemas apareceu na Inglaterra, através dos correios britânicos, em 1978, com o objetivo de criar novos serviços para estimular o uso do telefone e da televisão. Também chamada de teletexto, a tecnologia de transmissão que unia televisão, telefone e computador chegou a se popularizar em alguns países da Europa antes da chegada da internet. Na wikipedia é possível encontrar na definição do vocábulo teletexto uma imagem que reproduz uma tela da experiência alemã.

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No texto, Longhi cita o livro de Verginio Zaniboni Netto, O Videotexto no Brasil, publicado em 1986. O autor resgatou a experiência brasileira com a tecnologia por meio do jornal O Estado de São Paulo pioneiro como “fornecedor de serviço”, “cujo centro era o noticiário, com dados da Agência Estado, proporcionando ao usuário a notícia antecipadamente, ou seja, à noite, antes que fosse veiculado pelos jornais do dia seguinte (1986: 6). Pelo menos dois fatos memoráveis foram noticiados antes na TV: a cobertura das Olimpíadas de Los Angeles e a doença e morte do presidente Tancredo Neves, em 1984. Os autores ainda lembram que outros grupos jornalísticos, como a Gazeta Mercantil, o jornal Indústria e Comércio do Paraná, o Correio Brasiliense e a Associação Jornalística da Baixada Santista também se tornaram fornecedores de serviço em videotexto. Tudo isso antes da chegada da internet comercial no país, que aconteceu em 1995 e também trouxe a promessa de adiantar a manchete do dia seguinte.

Mas voltando ao Washington Post, a proposta me parece alvissareira. Desenvolvido por uma equipe de produto digital própria em parceria com a multinacional SAP – líder em desenvolvimento de softwares -, a aplicação foi desenvolvida a partir de dados sobre o comportamento de consumo dos usuários da Amazon FireTV e da Apple TV e testada por um grupo de early adopters antes de ser lançada. A tecnologia oferece uma seleção de manchetes (imagem e texto) selecionada por editores do jornal, ao escolher um item, o teleleitor pode rolar a tela para baixo com o controle remoto, ajustar o tamanho da fonte e cor para ler com conforto na tela grande. Também oferece recursos multimídia e interativos para o leitor optar pelo consumo que lhe convier.

O jornal impresso que tem a leitura textual como espinha dorsal ajusta a tecnologia ao valor do conteúdo mais relevante para o veículo, sem perder o centro forte da inteligência jornalística. Tenho repetido, desde a publicação do artigo sobre narrativas de realidade virtual do NYT, Guardian e El País, que os jornais terão futuro ao investir em programação para a internet e aplicações com narrativas jornalísticas proprietárias. Eu e Bezos, nesse aspecto, estamos juntos!